O padre aviador

Criador da passarola – a primeira versão do balão de ar quente –, Bartolomeu Lourenço de Gusmão nasceu em Santos (SP), foi perseguido pela Inquisição portuguesa e morreu jovem, aos 38 anos

Freddy Charlson

Sabe essa galera que tira onda na Capadócia, região da Turquia, voando em balões coloridos sobre canyons incríveis? Ou que vislumbram o Oceano Pacífico do alto, em festivais de balonismo em Temecula, na Califórnia, United States? Ou que corre o risco de causar incêndios em matas e residências, em festivais clandestinos de balões? Ou tipo o finado padre Adelir de Carli (o “padre dos balões”, desaparecido e morto no litoral de Santa Catarina, em 20 de abril de 2008, em mais uma de suas peripécias)? Pois é, balonistas e baloeiros, vocês só fazem isso graças ao religioso brasileiro/português Bartolomeu Lourenço de Gusmão, batizado como Bartolomeu Lourenço Santos.

06.11.2015 - MATÉRIA - PADRE AVIADOR - BLOG CHECK IN - IMAGEM PADRE

Ok, Bartô (chamemo-lo assim) foi o primeiro a utilizar os balões para testes como meio de transporte. Por isso, ele, que começou a estudar o aparelho no longínquo 1708, aos 23 anos, ficou conhecido como “padre voador”. Na época, tratava-se do primeiro aeróstato operacional, chamado de “passarola”. No próximo dia 18 de novembro completa-se 291 anos de sua morte, ocorrida em 1724, em Toledo, na Espanha. Não por acaso, a cidade medieval é famosa, também, pelos passeios de balão…

INVENTO – Pois bem, o padre voador começou os estudos em São Vicente (SP), entrou para o seminário em Salvador (BA) e foi para Portugal, até voltar ao Brasil. Aqui ficou até 1708, quando retornou às terras lusitanas (muito embora, à época, o Brasil também fosse “terra lusitana”). Lá, apresentou o seu estranho invento, em agosto e outubro de 1709. Era tipo um balão de ar quente em formato de pássaro: a passarola, uma espécie de fábula da fauna brasileira. E foi a primeira vez que o homem fez um aparelho vencer a gravidade. E tudo isso 74 anos antes do primeiro voo de balão tripulado da história, protagonizado pelos irmãos franceses Joseph Michel e Jacques Étienne Montgolfier, em 4 de junho de 1783, na cidade de Annonay, e que atingiu 2 mil metros de altura.

06.11.2015 - MATÉRIA - PADRE AVIADOR - BLOG CHECK IN - IMAGEM DEMONSTRAÇÃO O povo ficou embasbacado. Pense. E não era para menos. Na primeira vez, o protótipo pegou fogo. Na segunda, subiu pouco, a uma altura de 4 metros, e foi derrubado por serviçais do Palácio Real, com medo que aquele “troço estranho” queimasse as cortinas. Na quarta vez, beleza, foi até o teto do palácio. Todos essas apresentações para a Corte portuguesa foram em agosto de 1709. Somente em outubro, na quinta tentativa, o balão voou, voou, subiu, subiu, pelos campos e pradarias de Lisboa, desde o Castelo de São Jorge até o Terreiro do Paço, em Lisboa, a uma distância de um quilômetro. E desceu na manha, sem pegar fogo.

06.11.2015 - MATÉRIA - PADRE AVIADOR - BLOG CHECK IN - IMAGEM DEMONSTRAÇÃO NO PÁTIO

FAMA – A história se espalhou pela Europa. O padre ficou famoso. O aeróstato, o balão de ar quente, o objeto voador, enfim, virou Passarola. E isso graças a um desenho que representava Bartô dentro do balão em formato de pássaro. Mitologia pura. Disseram até que, por esconder a fonte térmica, que possibilitaria o voo do objeto, o padre queria esconder o seu (dele) projeto. Quem dera…

Quem dera, aliás, Bartô pudesse se esconder naqueles tempos de algo muito pior que os paparazzi. No caso, a Santa Inquisição. Sim, encheram o saco do religioso. Alguns disseram que ele queria ser Deus por inventar um balão voador, outros que ele teria se convertido ao judaísmo. E outros por, sei lá, valia tudo na hora de perseguir alguém, até dizer que ele simpatizava com cristãos-novos.

E logo alguém que deu para inventar tanto, como a bomba elevatória de água e a drenagem de embarcações, além de um sistema de lentes para assar carne ao sol. Ou seja, além de tudo, Bartô, o quarto dos 12 filhos do cirurgião Francisco Lourenço Rodrigues e de Maria Álvares, curtia um bom e belo churrasco. E para finalizar este texto, o padre é uma das personagens centrais do livro Memorial do Convento, do escritor português José Saramago, ganhador do Nobel de Literatura. Na obra, o padre fica dividido entre a religião e a ciência, entre a vontade humana de voar e a vontade divina de fazer o homem como Deus fez. Como não gostar dele?

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Do 14-Bis ao Quasar, dez aviões brasileiros com nomes bacanas

O Blog Check In homenageia a indústria aeronáutica brasileira, uma das maiores do mundo em número de criações e faturamento, criando uma lista com 10 aviões curiosos. Tem desde a criação de Alberto Santos Dumont até o moderno Legacy

Freddy Charlson

14-Bis, o pioneiro – Ah, o 14-Bis. Pois é, bem simples, a criação do inventor brasileiro Alberto Santos Dumont era tipo uma mistura de aeroplano com o balão 14 (o ferinha curtia numerar suas criações), usado pelo inventor em outros voos. Daí, o “bis”, sacaram? Foi com ele que, em 13 de setembro de 1906, o 14-Bis, sem balão, com mais potência e chamado de Oiseau de Proie, voou 8 metros. E isso num momento da história da humanidade em que era difícil definir o que seria um “voo de avião”, lembrem-se. A polêmica ganhava o mundo. Afinal, difícil acreditar que algo mais pesado do que o ar pudesse… voar. Pois é, voou.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 1 - 14BIS

Ah, é o meu Guri! – O AMT-600 Guri foi desenvolvido pela Aeromot, fabricante do Rio Grande do Sul, para treinamento e instrução primária de pilotagem. O pequenino tem dois lugares (lado a lado) na cabine e trem de pouso fixo e triciclo. Cabem 90 litros de combustível no tanque, o que dá para voar 4h30. O gurizinho mede 8,20m, tem envergadura de 10,50m. Ah, e a altura é de meros 2,51m. O aviãozinho, fabricado desde 1985, tem pouca potência – e é aconselhável usar bem os freios para controlar a corrida na decolagem. E, por fim, o Guri é uma opção frente aos helicópteros e ainda tem maior autonomia de voo.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 2 - GURI

Anequim, teu sorriso é um olhar de marfim – A brincadeira do título é uma alusão ao clássico Manequim, cantado pelo extinta boyband brasileira Dominó. Bem, voltando ao Anequim… trata-se de um avião que voa até 521,08 km/h. Ele foi desenvolvido Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no caso o Centro de Estudos Aeronáuticos do Departamento de Engenharia Mecânica. Com nome inspirado numa espécie de tubarão veloz e agressiva, o avião de meia tonelada de peso bateu cinco recordes mundiais de velocidade, em sua categoria. Feito de fibra de carbono, o Anequim tem um motor de 4 cilindros e é incapaz de ferir alguém. Quando bem pilotado, claro.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 3 - ANEQUIM

Xingu, o avião índio – E eis que o bimotor monoplano de uso civil e militar – que chique! – Embraer EMB-121 Xingu foi o primeiro turboélice pressurizado brasileiro. O avião, produzido entre 1976 e 1987 – foram 106 unidades, tinha espaço para até 3 tripulantes e 9 passageiros. Tudo em um comprimento de 12,3m e peso de 5,6 toneladas. Com esses números, ele chegava a uma velocidade de 450 km/h e a uma altura de 8,5 km. A base do Xingu foi o projeto de asa do Bandeirante, um turboélice bimotor para transporte de passageiros. O avião foi o primeiro de uma linhagem de turboélices pressurizados para uso executivo, militar e transporte de passageiros. E até chegar ao EMB-120 Brasília, com 350 unidades circulando no planeta. Rolou até uma outra versão, mais silenciosa, chamada EMB-121A1 Xingu II, em 4 de setembro de 1981.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 4 - XINGU

Tucano, uma aeronave nariguda – O primeiro voo do Embraer EMB-312 Tucano, turbohélice de treinamento e ataque leve, fabricado pela Embraer, ocorreu em 1980, mas as primeiras unidades foram entregues somente em 1983. Os primeiros a voarem com ela foram os militares do treinamento avançado na Academia da Força Aérea Brasileira (FAB), em Pirassununga (SP). A FAB encomendou 133 unidades do avião. No total, a produção da aeronave que serviu ao Esquadrão de Demonstração Aérea da Força Aérea Brasileira, a Esquadrilha da Fumaça, de 1983 a 2013, ultrapassou 600 unidades. O Tucano atingia 448 km/h a uma altura de 9.144m. Bacana, né? E media 9,86m. Por fim, podia carregar até 3 toneladas.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 5 - TUCANO

Legacy, um avião duro na queda – O que você lembra ao ouvir a palavra Legacy? Pois é, à memória vem a lembrança de um acidente com um Boeing 737-800 da GOL que matou 154 pessoas, em 29 de setembro de 2006. A batida em pleno voo levou o então presidente Lula a decretar luto oficial de três dias, após o, até então, maior acidente da história da aviação brasileira. Bem, o primeiro voo do Legacy 600, produzido pela Embraer, ocorreu em 2001. O avião transporta até 15 passageiros e mede 26m. Seus principais concorrentes são o Global 5000 da Bombardier, o Falcon 2000 da Dassault e o G450 da Gulfstream. O Legacy 600 é um avião de luxo e custa cerca de 30 milhões de dólares.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 6 - LEGACY

Quero-Quero, um passarinho – Para começo de conversa, só cabe uma pessoa nos Quero-Quero KW1 que ainda voam por aí. O bichinho é um planador monoplace fabricado no Brasil entre 1975 e 1981. De origem gaúcha – foi criado por um engenheiro de Novo Hamburgo –, ele voou pela primeira vez em 18 de dezembro de 1969. Uma versão modificada foi feita pela IPE Aeronaves, para uso em instrução primária, ou seja, ele era tipo o primeiro planador monoplace à disposição dos alunos. Com comprimento de 6,47m e envergadura de 15m, o Quero-Quero, nome de passarinho curioso, tem como velocidade de melhor planeio, 76 km/h.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 7 - QUERO-QUERO

Paulistinha, paulistano – Com nomezinho simpatiquinho, o Paulistinha CAP-4, fabricado pela Companhia Aeronáutica Paulista, voou pela primeira vez em 1941. Ou seja, o bichinho tem 74 anos bem distribuídos em 6,76m de comprimento e 2,08m de altura, para meras duas pessoas. O monomotor de asa alta atingia a velocidade máxima de 220 km/h e foi um dos aviões treinadores de maior sucesso no Brasil. A FAB operou uma segunda versão do aparelho entre 1959 e 1967. O Paulistinha era feito de madeira revestida em tela e tinha fuselagem em tubos de aço, com direito a trem de pouso fixo convencional e acomodação para dois pilotos.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 8 - PAULISTINHA

Biguá, esse menino pantaneiro – Construído numa parceria envolvendo a empresa paranaense IPE Aeronaves e o Aeroclube de Novo Hamburgo, o KW2 Biguá é um planador experimental, biplace e com protótipo projetado pelo engenheiro Kuno Widmaier. Seu primeiro voo foi em 19 de dezembro de 1974. O antigo Departamento de Aviação Civil (DAC) adquiriu o projeto do Biguá com o objetivo de dotar os aeroclubes brasileiros com planadores de construção nacional. Não deu certo. O Biguá acabou perdendo a disputa para o modelo IPE Nhapecan, totalmente construído pela própria IPE. E acabou servindo para instrução primária em Novo Hamburgo. Só um protótipo foi construído. Que peninha!

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 9 - BIGUÁ

Quasar, um raio de luz – E chegamos a 2009, ano da entrada em serviço do Quasar Lite II, avião projetado e produzido pela Aeroálcool. A singela aeronave, com nome inspirado no objeto astronômico quasar (quasi-stellar radio source, ou fonte de rádio quase-estelar) foi criada para o lazer (o consumo é baixo), para o treinamento (é de fácil pilotagem) e para pequenas viagens (dá para voar até 1.500 km com um tanque). A tripulação é espartana, apenas dois pilotos, afinal o Quasar mede meros 5,50m, tem altura de 2,18m e peso de 240kg. A velocidade máxima é de 242 km/h, ou seja, infinitamente menor do que a de um quasar original. Fica a dica.

06.11.2015 - BLOG CHECK IN - MATÉRIA AVIÕES BRASILEIROS - FOTO 10 - QUASAR