Dois dedos de prosa com Marcos Terena, o índio aviador

Marcos Terena, articulador internacional dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

Marcos Terena, articulador internacional dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

No Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira, o Blog Check In publica entrevista com Marcos Terena, articulador dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. No cardápio, as histórias como piloto, luta pelos direitos indígenas e, claro, sua vida

Freddy Charlson

Chego para a entrevista com o líder indígena Marcos Terena. Sou bem recebido por sua equipe – a jornalista Danielle Coimbra, o agroecólogo Agnar, a assessora internacional Lívia. Da janela do escritório do Comitê Intertribal, no complexo do Edifício Conic, no Setor de Diversões Sul, dá para ver toda a Esplanada dos Ministérios. Forçando a vista, até o Palácio do Planalto. Mais um pouco daria para ver a presidenta Dilma Rousseff em ação. Mas, não, Dilma Rousseff não é alcançada pelo olho nu. Faz calor. E nu é o que dá vontade de ficar, tamanha a secura do meio-dia em Brasília. E nu é como os índios ficavam, na época do descobrimento da Ilha de Santa de Cruz, Terra de Santa Cruz, Brasil. Hoje, não mais. Índio quer roupa, quer tecnologia, quer demarcação de terra, quer voar. Quer voar tipo Marcos Terena, o índio aviador.

Percebo a chegada do índio nascido há 61 anos, no distrito de Taunay, município de Aquidauana, no Mato Grosso antes de virar Mato Grosso do Sul. De estatura baixa, andar apressado, vestindo calça jeans e uma camisa polo dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas – ele é um dos organizadores do evento que começa nesta sexta-feira, dia 23, em Palmas, Tocantins, e que reúne 23 etnias brasileiras e indígenas de 25 países –, Terena (chamemo-lo assim, pois, o homem batizado como Mariano Marcos Terena), dá um sorriso e me presenteia com um chaveirinho alusivo ao evento.

Simpático, desculpa-se pelo atraso, pede um copo d’água e pergunta se podemos começar. Sim, podemos.

Tranquilo, o “japonês” – apelido de infância por causa de… ser baixinho e ter olhos miúdos, cabelo liso, tranquilidade à flor da pele – pergunta quais os assuntos que serão abordados. Ele diz que tem tanto para falar. Bom saber, sou ótimo em ouvir. E respondo-lhe: “Sua vida, sua história, sua história de vida, sua luta em defesa dos interesses indígenas, sua trajetória na Funai, sua trajetória nos céus do Brasil, como piloto…?”.

Sim, piloto. Marcos Terena, o Terena, vindo de uma família de seis irmãos (ele, quatro irmãos e uma irmã), que serviu na Aeronáutica, que escreveu dois livros, que casou e teve três filhos… é piloto. Sim, o primeiro índio aviador desse Brasil de Deus. E essa história de aviador, conta, começou lá na aldeia quando ele ainda era curumim e gostava de ver os aviões. O então Tereninha via aquela fumaça branca e imaginava: “Gente, o que será que estão cozinhando lá no céu, lá no avião?”. Sim, ele falava da fumaça que, no futuro, saberia tratar-se de névoa, não de mandioca cozida na “cozinha do avião”.

Sonho de menino

Foi o início do sonho do menino da etnia indígena xané que começou a tornar-se realidade aos 18 anos, em 1972, quando Terena alistou-se na Aeronáutica, na época em que o bordão “Jovem, você que completou 18 anos…” começava a fazer sucesso na ditadura militar – ah, a quem interessar possa, a Lei do Serviço Militar foi promulgada em agosto de 1964 e seu regulamento entrou em vigor em 20 de janeiro de 1966. Ele foi, viu os aviões e venceu. Até vencer, porém, o caminho seria longo, bem longo.

E, feito o sertanejo, o indígena também era um forte. Terena puxa da memória a história dos antepassados, que participaram da Guerra do Paraguai, “uma chacina”; do avô que serviu na Revolução de 1930, “o governo precisava de gente forte, para fazer o trabalho de guerrilha na selva”; da infância, quando ele e sua turma foram educados para serem ativistas e defenderem os colegas indígenas, “uma tradição do meu clã”; da vida em Campo Grande, que viraria capital do Mato Grosso do Sul, quando se abasteciam de um lixão; os primeiros contatos com a aviação…

Por falar nisso, Terena alistou-se como soldado na Base Aérea de Campo Grande. Disciplinado, aprendeu o conceito de segurança militar. O índio que sonhava em virar aviador sempre acreditou que as Forças Armadas são o ancoradouro da sociedade, tanto dos ricos quanto dos pobres. “Os pobres não tinham jeito na vida, naquela época. E alistar-se fazia sentido”, lembra ele, que defende que a diminuição do efetivo nas Forças Armadas (a tal dispensa por “excesso de contingente”) colaborou para a inserção do jovem na “sociedade marginal”. Aspas dele, do índio aviador.

Mas ele, não. Terena, não. Esperto, inteligente e dedicado, o indígena fez curso de um ano para virar piloto, ali, na FAB mesmo. O incentivo, além do sonho pessoal, partiu do tenente-aviador Samuel Wagner, colega do curso de inglês, que morreria num acidente com um avião Buffalo, em 1974. Terena era soldado, mas vivia o conceito de que nas Forças Armadas, com uniforme, todas eram iguais. Assim, gente como a gente – ou melhor, gente como os oficiais –, ele encarou a missão. Concluiu o Cientifico (atual Ensino Médio), desistiu do curso de Medicina – “Era muito caro e diurno, eu era pobre e precisava trabalhar” – e estudou para passar na Academia da Força Aérea. Passou.

Brasil, tricampeão mundial

Corria o ano de 1975 – o Brasil governado por Ernesto Geisel era mero tricampeão mundial de futebol – e Terena passou nas provas escritas e exames de saúde. Tinha zero de miopia, de hipermetropia e de estrabismo. Aprendeu inglês e, também, que poderia manejar um avião. A trajetória não foi fácil, claro. No começo, ele se apavorou. Os comandantes e oficiais brincavam com os recrutas. Ligavam o ar condicionado do avião para eles terem vontade de ir ao banheiro – “Mas não tinha banheiro em aviões militares do período”, lembra. “Imagine entrar num Hércules, na Base Aérea dos Afonso, no Rio de Janeiro, um avião de paraquedistas, sem lugar para sentar, e encarar um voo sem escalas para Natal, no Rio Grande do Norte. Eram 4h30 de voo, em pé”, conta.

Ok, e o primeiro voo, como passageiro?

Terena olha para o alto, fecha os olhinhos de japonês e começa a falar. “Peguei uma tempestade num C-47, nem vomitei, fui bravo. Ali, percebi que tinha condições de encarar as manobras como piloto”, conta.

E o primeiro voo, como piloto?

Terena coça a cabeça, olha para a Esplanada dos Ministérios, vê o céu todo claro, azulado… e fala. Conta que foi num Universal T-25, um monomotor. Era um voo de treinamento em Natal (RN) e ele só pensava em fazer tudo direito, bem direitinho. “O primeiro voo você tem que fazer um negócio caprichado, treinar na sua cabeça, decorar aquele monte de reloginhos, entrar no avião parado, colocar tudo aquilo na sua mente. Saber aonde está cada parte da máquina, as alavancas de emergências, a bússola.”

E, claro, não ficar apavorado.

Um bando de aeronaves

Um índio aviador, aliás, que pilotou vários tipos de aeronaves. Além do Universal T-25, ele assumiu o comando de um Cessna 172 e de um Cessna 205, típicos aviões de selva da Funai. Voou, ainda, com o Sêneca 1, 2 e 3. E, claro, com o Bandeirante. Ah, também pilotou o Islander, um avião inglês. “Aprendi a voar na selva com ele, a 200 km/h, em voos de seis horas, sem escalas”, lembra. Um voo diferente. “Na cidade, o controlador de voo pilota pra você. Na selva, é você quem manda e quem toma as decisões”, fala.

E ensina:

Segundo o índio aviador, quando você pilota na selva, tem que conhecer as nuvens, para ver se vai chover ou ventar. Se o avião cair, vai cair no meio da mata. A folhagem te cobre, ninguém te acha. Sim, o piloto tem que respeitar os códigos da natureza. Voando muito alto, não se vê nada quando se sofre um acidente. Terena sofreu quatro, em 32 anos no comando de aeronaves, entre 1978 e 2010. Certa feita, o motor do avião pegou fogo e ele fez um pouso de emergência. Em outra vez, houve pane no motor. Tranquilo. Terena ficou calmo, tipo os japoneses, e dominou a situação. E teve a vez em que o avião deu problemas logo na decolagem. Pouso abortado.

Se ele soubesse, aliás, abortaria um voo em que, 15 anos depois do problema, descobriu que fora sabotado. Foi mais ou menos assim…

Corriam os anos 1980 e nosso índio aviador pilotava um Sêneca, quando trabalhava na Funai. Nesse dia, ele transportava vários caciques da etnia Kren-nakarole, que voltavam para suas respectivas aldeias, no Alto Xingu, em Mato Grosso. De repente, em pleno voo, o avião perdeu o equilíbrio e começou a balançar. O leme tremia igual vara verde na mata. A pane mais forte ocorreu justamente quando Terena sobrevoava o Araguaia.

Terena diz que o avião perdeu o controle, que seu copiloto ficou apavorado, que pediu para o copiloto não mexer em nada a não ser que ele, Terena, batesse a cabeça e desmaiasse, que lutou bravamente para estabilizar o avião, que a natureza ajudou com um vento contrário, que resolveu manter a velocidade e descer na Ilha do Bananal, que cortou motor e combustível, que o copiloto ficou mais nervoso e aumentou a velocidade para 70 nós (130 km/h), que ele conseguiu pousar, que o avião quebrou no pouso e que ninguém ficou ferido. Ah, o avião? Bem, ele quebrou a bequilha, peça que funciona como auxiliar do trem de aterrissagem. E só. Coisa pouca diante de tanto drama.

Um drama que continuou um mistério por longos 15 anos. Isso. Apenas década e meia depois, ele teve acesso a um “relatório reservado” da Polícia Federal, que dizia que o Sêneca pilotado por ele pela Funai, de Brasília para o Xingu, nos anos 1980, fora sabotado. Isso mesmo: sa-bo-ta-do. Alguém desparafusara um parafuso, deixando o avião mais bambo que gelatina sobre um piso de porcelanato.

Anos na Funai

Sua missão, porém, interrompida quando ele mais se dedicava, enquanto piloto da Funai, à questão indígena. Na época, sonhava em pilotar pela Varig, achava que tinha condições técnicas, que estava bem treinado, que era desenvolvido intelectualmente, mas… “Mas a Funai era dirigida por coronéis da reserva e eles questionaram meu brevê. Passei por várias etapas para tirar o brevê, não era a Funai que liberava a autorização para eu voar”, conta, sem esconder a revolta. Resultado: os coronéis disseram que Terena não poderia ter brevê porque era índio. Sim, porque ele era índio.

“Qual o problema de eu ser índio? Não posso pilotar, não poderia pilotar?”, pergunta. Concordo, quem sou eu para tirar o sonho do índio aviador. “Pois é, interpretaram a lei do jeito que queriam e disseram que todo índio era incapaz, que era tutelado pelo Estado, ora”, reclama Terena que, se não tivesse conhecido a Funai, teria ido direto para a Varig ou a Vasp, companhias que viveram os anos dourados da aviação no Brasil.

Nessa lenga-lenga, seguraram seu brevê por três longos anos, o que atrapalhou a ideia que ele tinha de voar por todos os cantos. Sem poder pilotar, Terena ficou em Brasília e fez política indígena, a partir de 1980. Até que um dia, a Procuradoria-Geral da República e o Ministério da Aeronáutica se posicionaram com um parecer jurídico, dizendo que se uma pessoa possuísse as credenciais de piloto era por causa de sua capacidade técnica e não importava se essa pessoa fosse mulher ou índio, por exemplo. Essa pessoa era um piloto, era o Terena, o índio aviador.

Um livro cheio de histórias

Um homem com tantas histórias que resolveu contá-las em um livro. O nome? O Índio Aviador, claro. As histórias são voltadas para a juventude, para a educação e tratam das aventuras que viveu na época de aviador e de como elas foram utilizadas para a defesa dos direitos indígenas. Eles sabiam que um índio pilotava aviões e perguntavam as coisas para Terena, como era voar, se era difícil, como era conhecer o Brasil, como eles poderiam fazer o mesmo. Sim, Terena conhecia o Brasil e as etnias. “Isso foi facilitado pelo fato de, ao visitar as aldeias, eu dormir com eles e não na cidade”, conta o homem que sempre viveu tendo uma frase criada por ele mesmo como lema, na época em que lutava para manter o próprio brevê: “Posso ser o que você quiser sem deixar de ser o que eu sou”. Exatamente o que Terena procurou ser, para ele e para a vida.

Não à toa, afinal ele foi o primeiro indígena brasileiro a estudar aviação e a aprender a dominar a tecnologia do “mais pesado que o ar”, a aprender o conceito de luta pela demarcação de terras, a montar estratégias de campo para os camponeses, a conhecer os latifundiários, a tanta coisa. Ah, e a receber uma carta da escritora nordestina Raquel de Queiroz (membro da Academia Brasileira de Letras). Na missiva, ela disse para o indígena usar o dom da escrita a favor do seu povo. “Usei. Assim como usei a tecnologia da aviação para conversar com as aldeias e trocar experiências. Eu era um indígena do Pantanal, aí fazia voos rasantes, para alegrá-los e mostrar que um índio poderia voar.”

Pois é, Terena, assim, aproximou-se das diferentes realidades indígenas e entendeu que nenhuma aldeia representa outra, que nenhum cacique representa outro. “Terena é terena, Guarani é guarani. Os jovens indígenas que estão indo para as universidades estão perdendo a própria essência e achando que os direitos indígenas foram escritos pelos brancos. Não foram, eles são parte de nossa história”, afirma, convicto.

Tão convicto, aliás, que ele encerra a entrevista, levanta da mesa em que falava à reportagem do Blog Check In, da Secretaria de Aviação, e ao povo da EBC. “Estão todos satisfeitos?”, pergunta. Respondemos que sim, que o encontro foi ótimo e que é hora mesmo de seguir em frente. O calor incomoda, ainda mais do que no início da conversa. Tranquilo, o “japonês” pede outro copo d’água para a assessora e diz: “Que tal uma foto, aqui, com esse cocar ao fundo?”, aponta para o belo objeto colorido pregado na parede. Tiramos a foto, claro, afinal não é sempre que a gente consegue um retrato com um índio aviador, não é mesmo?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s