Dois dedos de prosa com Marcos Terena, o índio aviador

Marcos Terena, articulador internacional dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

Marcos Terena, articulador internacional dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

No Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira, o Blog Check In publica entrevista com Marcos Terena, articulador dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. No cardápio, as histórias como piloto, luta pelos direitos indígenas e, claro, sua vida

Freddy Charlson

Chego para a entrevista com o líder indígena Marcos Terena. Sou bem recebido por sua equipe – a jornalista Danielle Coimbra, o agroecólogo Agnar, a assessora internacional Lívia. Da janela do escritório do Comitê Intertribal, no complexo do Edifício Conic, no Setor de Diversões Sul, dá para ver toda a Esplanada dos Ministérios. Forçando a vista, até o Palácio do Planalto. Mais um pouco daria para ver a presidenta Dilma Rousseff em ação. Mas, não, Dilma Rousseff não é alcançada pelo olho nu. Faz calor. E nu é o que dá vontade de ficar, tamanha a secura do meio-dia em Brasília. E nu é como os índios ficavam, na época do descobrimento da Ilha de Santa de Cruz, Terra de Santa Cruz, Brasil. Hoje, não mais. Índio quer roupa, quer tecnologia, quer demarcação de terra, quer voar. Quer voar tipo Marcos Terena, o índio aviador.

Percebo a chegada do índio nascido há 61 anos, no distrito de Taunay, município de Aquidauana, no Mato Grosso antes de virar Mato Grosso do Sul. De estatura baixa, andar apressado, vestindo calça jeans e uma camisa polo dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas – ele é um dos organizadores do evento que começa nesta sexta-feira, dia 23, em Palmas, Tocantins, e que reúne 23 etnias brasileiras e indígenas de 25 países –, Terena (chamemo-lo assim, pois, o homem batizado como Mariano Marcos Terena), dá um sorriso e me presenteia com um chaveirinho alusivo ao evento.

Simpático, desculpa-se pelo atraso, pede um copo d’água e pergunta se podemos começar. Sim, podemos.

Tranquilo, o “japonês” – apelido de infância por causa de… ser baixinho e ter olhos miúdos, cabelo liso, tranquilidade à flor da pele – pergunta quais os assuntos que serão abordados. Ele diz que tem tanto para falar. Bom saber, sou ótimo em ouvir. E respondo-lhe: “Sua vida, sua história, sua história de vida, sua luta em defesa dos interesses indígenas, sua trajetória na Funai, sua trajetória nos céus do Brasil, como piloto…?”.

Sim, piloto. Marcos Terena, o Terena, vindo de uma família de seis irmãos (ele, quatro irmãos e uma irmã), que serviu na Aeronáutica, que escreveu dois livros, que casou e teve três filhos… é piloto. Sim, o primeiro índio aviador desse Brasil de Deus. E essa história de aviador, conta, começou lá na aldeia quando ele ainda era curumim e gostava de ver os aviões. O então Tereninha via aquela fumaça branca e imaginava: “Gente, o que será que estão cozinhando lá no céu, lá no avião?”. Sim, ele falava da fumaça que, no futuro, saberia tratar-se de névoa, não de mandioca cozida na “cozinha do avião”.

Sonho de menino

Foi o início do sonho do menino da etnia indígena xané que começou a tornar-se realidade aos 18 anos, em 1972, quando Terena alistou-se na Aeronáutica, na época em que o bordão “Jovem, você que completou 18 anos…” começava a fazer sucesso na ditadura militar – ah, a quem interessar possa, a Lei do Serviço Militar foi promulgada em agosto de 1964 e seu regulamento entrou em vigor em 20 de janeiro de 1966. Ele foi, viu os aviões e venceu. Até vencer, porém, o caminho seria longo, bem longo.

E, feito o sertanejo, o indígena também era um forte. Terena puxa da memória a história dos antepassados, que participaram da Guerra do Paraguai, “uma chacina”; do avô que serviu na Revolução de 1930, “o governo precisava de gente forte, para fazer o trabalho de guerrilha na selva”; da infância, quando ele e sua turma foram educados para serem ativistas e defenderem os colegas indígenas, “uma tradição do meu clã”; da vida em Campo Grande, que viraria capital do Mato Grosso do Sul, quando se abasteciam de um lixão; os primeiros contatos com a aviação…

Por falar nisso, Terena alistou-se como soldado na Base Aérea de Campo Grande. Disciplinado, aprendeu o conceito de segurança militar. O índio que sonhava em virar aviador sempre acreditou que as Forças Armadas são o ancoradouro da sociedade, tanto dos ricos quanto dos pobres. “Os pobres não tinham jeito na vida, naquela época. E alistar-se fazia sentido”, lembra ele, que defende que a diminuição do efetivo nas Forças Armadas (a tal dispensa por “excesso de contingente”) colaborou para a inserção do jovem na “sociedade marginal”. Aspas dele, do índio aviador.

Mas ele, não. Terena, não. Esperto, inteligente e dedicado, o indígena fez curso de um ano para virar piloto, ali, na FAB mesmo. O incentivo, além do sonho pessoal, partiu do tenente-aviador Samuel Wagner, colega do curso de inglês, que morreria num acidente com um avião Buffalo, em 1974. Terena era soldado, mas vivia o conceito de que nas Forças Armadas, com uniforme, todas eram iguais. Assim, gente como a gente – ou melhor, gente como os oficiais –, ele encarou a missão. Concluiu o Cientifico (atual Ensino Médio), desistiu do curso de Medicina – “Era muito caro e diurno, eu era pobre e precisava trabalhar” – e estudou para passar na Academia da Força Aérea. Passou.

Brasil, tricampeão mundial

Corria o ano de 1975 – o Brasil governado por Ernesto Geisel era mero tricampeão mundial de futebol – e Terena passou nas provas escritas e exames de saúde. Tinha zero de miopia, de hipermetropia e de estrabismo. Aprendeu inglês e, também, que poderia manejar um avião. A trajetória não foi fácil, claro. No começo, ele se apavorou. Os comandantes e oficiais brincavam com os recrutas. Ligavam o ar condicionado do avião para eles terem vontade de ir ao banheiro – “Mas não tinha banheiro em aviões militares do período”, lembra. “Imagine entrar num Hércules, na Base Aérea dos Afonso, no Rio de Janeiro, um avião de paraquedistas, sem lugar para sentar, e encarar um voo sem escalas para Natal, no Rio Grande do Norte. Eram 4h30 de voo, em pé”, conta.

Ok, e o primeiro voo, como passageiro?

Terena olha para o alto, fecha os olhinhos de japonês e começa a falar. “Peguei uma tempestade num C-47, nem vomitei, fui bravo. Ali, percebi que tinha condições de encarar as manobras como piloto”, conta.

E o primeiro voo, como piloto?

Terena coça a cabeça, olha para a Esplanada dos Ministérios, vê o céu todo claro, azulado… e fala. Conta que foi num Universal T-25, um monomotor. Era um voo de treinamento em Natal (RN) e ele só pensava em fazer tudo direito, bem direitinho. “O primeiro voo você tem que fazer um negócio caprichado, treinar na sua cabeça, decorar aquele monte de reloginhos, entrar no avião parado, colocar tudo aquilo na sua mente. Saber aonde está cada parte da máquina, as alavancas de emergências, a bússola.”

E, claro, não ficar apavorado.

Um bando de aeronaves

Um índio aviador, aliás, que pilotou vários tipos de aeronaves. Além do Universal T-25, ele assumiu o comando de um Cessna 172 e de um Cessna 205, típicos aviões de selva da Funai. Voou, ainda, com o Sêneca 1, 2 e 3. E, claro, com o Bandeirante. Ah, também pilotou o Islander, um avião inglês. “Aprendi a voar na selva com ele, a 200 km/h, em voos de seis horas, sem escalas”, lembra. Um voo diferente. “Na cidade, o controlador de voo pilota pra você. Na selva, é você quem manda e quem toma as decisões”, fala.

E ensina:

Segundo o índio aviador, quando você pilota na selva, tem que conhecer as nuvens, para ver se vai chover ou ventar. Se o avião cair, vai cair no meio da mata. A folhagem te cobre, ninguém te acha. Sim, o piloto tem que respeitar os códigos da natureza. Voando muito alto, não se vê nada quando se sofre um acidente. Terena sofreu quatro, em 32 anos no comando de aeronaves, entre 1978 e 2010. Certa feita, o motor do avião pegou fogo e ele fez um pouso de emergência. Em outra vez, houve pane no motor. Tranquilo. Terena ficou calmo, tipo os japoneses, e dominou a situação. E teve a vez em que o avião deu problemas logo na decolagem. Pouso abortado.

Se ele soubesse, aliás, abortaria um voo em que, 15 anos depois do problema, descobriu que fora sabotado. Foi mais ou menos assim…

Corriam os anos 1980 e nosso índio aviador pilotava um Sêneca, quando trabalhava na Funai. Nesse dia, ele transportava vários caciques da etnia Kren-nakarole, que voltavam para suas respectivas aldeias, no Alto Xingu, em Mato Grosso. De repente, em pleno voo, o avião perdeu o equilíbrio e começou a balançar. O leme tremia igual vara verde na mata. A pane mais forte ocorreu justamente quando Terena sobrevoava o Araguaia.

Terena diz que o avião perdeu o controle, que seu copiloto ficou apavorado, que pediu para o copiloto não mexer em nada a não ser que ele, Terena, batesse a cabeça e desmaiasse, que lutou bravamente para estabilizar o avião, que a natureza ajudou com um vento contrário, que resolveu manter a velocidade e descer na Ilha do Bananal, que cortou motor e combustível, que o copiloto ficou mais nervoso e aumentou a velocidade para 70 nós (130 km/h), que ele conseguiu pousar, que o avião quebrou no pouso e que ninguém ficou ferido. Ah, o avião? Bem, ele quebrou a bequilha, peça que funciona como auxiliar do trem de aterrissagem. E só. Coisa pouca diante de tanto drama.

Um drama que continuou um mistério por longos 15 anos. Isso. Apenas década e meia depois, ele teve acesso a um “relatório reservado” da Polícia Federal, que dizia que o Sêneca pilotado por ele pela Funai, de Brasília para o Xingu, nos anos 1980, fora sabotado. Isso mesmo: sa-bo-ta-do. Alguém desparafusara um parafuso, deixando o avião mais bambo que gelatina sobre um piso de porcelanato.

Anos na Funai

Sua missão, porém, interrompida quando ele mais se dedicava, enquanto piloto da Funai, à questão indígena. Na época, sonhava em pilotar pela Varig, achava que tinha condições técnicas, que estava bem treinado, que era desenvolvido intelectualmente, mas… “Mas a Funai era dirigida por coronéis da reserva e eles questionaram meu brevê. Passei por várias etapas para tirar o brevê, não era a Funai que liberava a autorização para eu voar”, conta, sem esconder a revolta. Resultado: os coronéis disseram que Terena não poderia ter brevê porque era índio. Sim, porque ele era índio.

“Qual o problema de eu ser índio? Não posso pilotar, não poderia pilotar?”, pergunta. Concordo, quem sou eu para tirar o sonho do índio aviador. “Pois é, interpretaram a lei do jeito que queriam e disseram que todo índio era incapaz, que era tutelado pelo Estado, ora”, reclama Terena que, se não tivesse conhecido a Funai, teria ido direto para a Varig ou a Vasp, companhias que viveram os anos dourados da aviação no Brasil.

Nessa lenga-lenga, seguraram seu brevê por três longos anos, o que atrapalhou a ideia que ele tinha de voar por todos os cantos. Sem poder pilotar, Terena ficou em Brasília e fez política indígena, a partir de 1980. Até que um dia, a Procuradoria-Geral da República e o Ministério da Aeronáutica se posicionaram com um parecer jurídico, dizendo que se uma pessoa possuísse as credenciais de piloto era por causa de sua capacidade técnica e não importava se essa pessoa fosse mulher ou índio, por exemplo. Essa pessoa era um piloto, era o Terena, o índio aviador.

Um livro cheio de histórias

Um homem com tantas histórias que resolveu contá-las em um livro. O nome? O Índio Aviador, claro. As histórias são voltadas para a juventude, para a educação e tratam das aventuras que viveu na época de aviador e de como elas foram utilizadas para a defesa dos direitos indígenas. Eles sabiam que um índio pilotava aviões e perguntavam as coisas para Terena, como era voar, se era difícil, como era conhecer o Brasil, como eles poderiam fazer o mesmo. Sim, Terena conhecia o Brasil e as etnias. “Isso foi facilitado pelo fato de, ao visitar as aldeias, eu dormir com eles e não na cidade”, conta o homem que sempre viveu tendo uma frase criada por ele mesmo como lema, na época em que lutava para manter o próprio brevê: “Posso ser o que você quiser sem deixar de ser o que eu sou”. Exatamente o que Terena procurou ser, para ele e para a vida.

Não à toa, afinal ele foi o primeiro indígena brasileiro a estudar aviação e a aprender a dominar a tecnologia do “mais pesado que o ar”, a aprender o conceito de luta pela demarcação de terras, a montar estratégias de campo para os camponeses, a conhecer os latifundiários, a tanta coisa. Ah, e a receber uma carta da escritora nordestina Raquel de Queiroz (membro da Academia Brasileira de Letras). Na missiva, ela disse para o indígena usar o dom da escrita a favor do seu povo. “Usei. Assim como usei a tecnologia da aviação para conversar com as aldeias e trocar experiências. Eu era um indígena do Pantanal, aí fazia voos rasantes, para alegrá-los e mostrar que um índio poderia voar.”

Pois é, Terena, assim, aproximou-se das diferentes realidades indígenas e entendeu que nenhuma aldeia representa outra, que nenhum cacique representa outro. “Terena é terena, Guarani é guarani. Os jovens indígenas que estão indo para as universidades estão perdendo a própria essência e achando que os direitos indígenas foram escritos pelos brancos. Não foram, eles são parte de nossa história”, afirma, convicto.

Tão convicto, aliás, que ele encerra a entrevista, levanta da mesa em que falava à reportagem do Blog Check In, da Secretaria de Aviação, e ao povo da EBC. “Estão todos satisfeitos?”, pergunta. Respondemos que sim, que o encontro foi ótimo e que é hora mesmo de seguir em frente. O calor incomoda, ainda mais do que no início da conversa. Tranquilo, o “japonês” pede outro copo d’água para a assessora e diz: “Que tal uma foto, aqui, com esse cocar ao fundo?”, aponta para o belo objeto colorido pregado na parede. Tiramos a foto, claro, afinal não é sempre que a gente consegue um retrato com um índio aviador, não é mesmo?

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Sonhando (e voando) acordados

Cem crianças carentes de escolas de Planaltina (DF) e Cabeceira Grande (MG) passam momentos inesquecíveis no Aeroporto Internacional de Brasília e num A-320. Nenhum deles havia entrado antes num avião; foram instantes de alegria e emoção

Freddy Charlson

“Atenção, passageiros mirins da Escola Classe ETA 44 e da Escola Professora Hozana, por favor, preparem-se. O embarque de vocês vai começar agora!”

15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - ANDANDO NO TERMINAL

O aviso informal – bem mais informal do que o habitual – feito ao microfone por um funcionário da TAM causou um abalo de 3.0 na Escala Richter (aquela que mede a intensidade dos terremotos) no saguão do Aeroporto Internacional Juscelino Kubistchek. Gritos, risadas, pulos de alegria, socos jogados no ar, uma festa. A festa, ali, em frente ao Portão 19, contagiou passageiros que estavam em outros portões. De perto ou de longe, eles se espantavam e riam com toda aquela euforia.

15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - COM CART+âO DE EMBARQUE

Não era à toa. Os 80 alunos do ensino infantil à quinta série da Escola Classe ETA 44, localizada em Planaltina, viviam um sonho. O mesmo ocorria com os 18 estudantes da quarta série do Colégio Professora Hozana, em Cabeceira Grande (MG), município a 120 quilômetros da capital do país. Para muitos, era a primeira vez que viam aviões tão de pertinho. Para quase todos, era a primeira vez que visitavam o aeroporto que recebe 400 aviões e 50 mil pessoas a cada dia. Para todos, seria a primeira vez que entrariam num avião, de verdade. No caso, um A-320, da TAM, com capacidade para 174 pessoas. Sim, aqueles meninos realizaram sonhos em série…

15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - NA ESTEIRA 15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - ENTRANDO NO PORT+âO 15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - CARROS DE BOMBEIRO

E tudo começou com uma conversa entre a Inframérica, administradora do terminal de Brasília, e a diretora da escola planaltinense, a simpática Denise Valadares de Carvalho. A concessionária queria dar uma alegria aos estudantes e bombar o Dia das Crianças. A diretoria queria dar um upgrade no projeto Meios de Transporte, que desenvolve na escola. Conversa daqui, conversa de lá, busca de parceiros ali, produção acolá. E, pronto! O projeto Passeio no Aeroporto saiu do papel e ganhou asas no aeroporto brasiliense.

Voo em solo
Asas mesmo. Os meninos praticamente voavam pelo terminal na tarde dessa quarta-feira (14/10). Chegaram em quatro ônibus escolares, ganharam camisetas, receberam uma espécie de “cartão de embarque”, passaram pelo raio-x, esperaram a chamada no Portão 19, pegaram um ônibus do aeroporto e, tchan, tchan, tchan, tchan!, entraram no avião da TAM. Ali, nove funcionários – dois pilotos e sete comissários – da empresa, baseados em Brasília, fizeram serviço de voluntariado para mostrar um pouco de sua rotina aos pequenos.

15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - NO P+üTIO

Entre demonstrações do uso correto do cinto de segurança e da poltrona e das luzes, os comissários, além de servirem água e refrigerante, divertiram as crianças. Por “divertir”, entenda-se, brincar, fazer piadas e até dançar, como fez Douglas Lupo, chamado de “Comissário Louco”. Com uma máscara de oxigênio no rosto, ele atravessou o corredor do avião repetidas vezes, dançando “Macarena”. A criançada sorriu até. E só lamentou que a comissária Myrelle Furlan não tenha feito o mesmo, apesar dos repetidos pedidos delas e da tripulação.

“Está tudo tão legal aqui. Estou adorando o passeio, afinal é a primeira vez que eu entro em um avião”, contava a animada Júlia Santos de Sá, 11 anos, aluna da ETA 44 e moradora do Núcleo Rural Sarandi, na região de Planaltina. Júlia sentou numa poltrona na parte de trás do avião, a 30B, e, de lá, observava a tudo, bastante interessada. “Quero ser médica ou veterinária. Adoro cuidar das pessoas e dos animais. E preciso trabalhar para viajar muito”, disse. “Viajar de quê, Júlia?”, perguntou a reportagem do Blog Check In. “De avião, claro. Sonho em conhecer a Europa”, confessou, entre um e outro gole de refrigerante, a filha da babá Alenuzia, e de um funcionário da Embrapa, seu Ronaldo. Boa menina.

Também bom menino, mais um milhão de vezes mais agitado que Júlia, era o pequeno Moisés Pereira Dantas, 7 anos. Ele pulava de cadeira em cadeira, fazia perguntas, pedia refrigerante… “Tô gostando, adorei entrar no avião, tomei refrigerante, li as revistas e achei tudo legal, isso aqui é muito grande”, disparava, a torto e a direito. Também morador do Núcleo Rural Sarandi, o aluno de primeiro ano aproveitou para dizer que quer viajar para Goiânia. “Fazer o quê lá, menino”, perguntou a reportagem do Blog. “Visitar meu amigo que mudou para lá, o Vladimir”, explicou o aluno da paciente professora Ana Lúcia. Uma graça, o Moisés.

Salvando vidas

E, assim, se passou a tarde. Os estudantes saíram do avião e conheceram a Seção de Combate a Incêndio, conversaram com os bombeiros de aeródromo, assistiram uma palestra sobre o trabalho deles e sobre a preservação do lixo, conheceram os equipamentos dos 64 bombeiros que atuam no Aeroporto Internacional Juscelino Kubistchek, viram os cinco carros disponíveis no Terminal, se empolgaram com as aves de rapina, gaviões e falcão, que protegem o ar e a terra em torno das duas pistas do terminal e terminaram o dia com um delicioso lanche oferecido por uma rede de fast food que tem loja no aeroporto.

15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - AVES DE RAPINA 15.10.2015 - FOTO - BLOG CHECK IN - BOMBEIROS DE AER+ôDROMO

O lanche – acompanhado de uma sacola com brinquedo, gibi, lápis de cor e folhas para colorir – foi, digamos, a cereja do bolo de uma tarde tão especial. Ao final da aventura, os pequenos estudantes estavam realizados, ainda eufóricos em realizar o sonho de se tornarem passageiros por um dia em um dos maiores aeroportos do país. Muitas, ali, naquelas idas e vindas – até o passeio na esteira foi digno de festa – tiveram, despertada a paixão pela aviação.

Paixão, aliás, que já faz parte do dia a dia de Raniel Humberto Rocha Coelho, 10 anos. Aluno da Escola Professora Hozana, em Cabeceira Grande (MG), ele sonha, um dia, em pilotar um avião. Quer voar alto, conhecer outras cidades que não a sua, que tem meros sete mil habitantes, e viajar muito. “Desde criança eu gosto de avião e até já voei num, mas como passageiro”, brincou o menino. É que o pai, conta, trabalha numa fazenda chamada Santa Matilde, no município.

E, certa feita, Raniel voou num “pulverizador”. “Pul… o quê”, pergunta a reportagem. “Pulverizador”, fala rápido, com o característico sotaque de qualquer mineirinho. “Um avião que voa baixo e joga água, sementes e veneno no solo”, explica. “E esse menino, Raniel, teve medo?”, questiona, novamente, o repórter. “Medo, não. Mas senti um friozinho na barriga, não vou negar, né?”.

Friozinho na barriga, tipo o que ocorreu no passeio, quando Raniel entrou no A-320 da TAM, avião bem maior e bem mais moderno que o pulverizador que voa baixo e que joga água, sementes e veneno nos solos das Gerais. Ali, com cara de bobo e de espanto, Raniel não deu um pio. Olhava para todos os lados. Conferiu janela, teto e corredor, prestou atenção nas orientações dos comissários e, bem, impossível saber o que ele estava sentindo ou pensando naquele momento. Impossível.

Aviação também é um negócio bizarro!

Vez ou outra aparece uma notícia esquisita envolvendo aviões, tripulação, passageiro, malucos chamando a atenção, voos com finais inusitados e até gente fazendo das tripas, coração, para entrar nesse mercado, que é cada vez mais atraente. O Blog Check-in coletou algumas histórias, digamos, um tanto diferentes, desse mundo que cresce a cada dia e que faz parte da realidade da maioria dos brasileiros. Sim, amigos, a aviação é bizarra, mas, também, é muito bacana. Embarque nessa viagem com a gente.

Freddy Charlson (revisado por Marcella Garcia)

Arte-blog

1 – Cantor veste muita roupa e passa mal em voo
Vamos ser sinceros? Pois é, ninguém curte muito essa história de pagar excesso de bagagem, não é? Tem gente, porém, que exagera. Em 2015, o cantor James McElvar, da banda escocesa Rewind, por exemplo, recusou-se a pagar o equivalente a R$ 220 por excesso de bagagem e preferiu vestir 12 camadas de roupa. O resultado? Passou mal no avião: exaustão pelo calor. Sorte do garoto que um paramédico estava no voo entre Londres e Glasgow e o socorreu. Ah, o voo era da companhia low cost EasyJet. E McElvar vestia quatro casacos, seis camisetas, duas bermudas, três calças jeans, uma jaqueta e dois chapéus. Espertão, hein?

2 – Uma soneca, um pipi e tudo bem!
Pense na seguinte situação: você está de boa, dormindo, curtindo um voo tranquilo quando, de repente, alguém faz xixi em você. Impossível? Nada disso. Foi exatamente o que ocorreu com os passageiros de um voo entre Anchorage (Alasca) e Portland (Oregon), realizado em setembro de 2015 nos Estados Unidos. Mucho loco, Jeff Rubin começou, meia hora antes do pouso, a fazer pipi entre as fendas das poltronas, acertando os colegas de voo. Aí, num momento, ele escorregou e espalhou o xixi em geral. Que desagradável. O final da história? O camarada foi preso ainda no aeroporto, e acabou sendo acusado de crime ambiental e má-conduta.

3 – Raio não perdoa nem o avião em terra
Pergunte a qualquer pessoa se ela tem medo de raios e a resposta será quase sempre que “sim”. Muitos também têm medo do avião em que viajam ser atingido por um raio, mesmo que a maioria saiba que esse fenômeno da natureza ocorre, na maioria das vezes, em altitudes mais baixas. Em agosto de 2015, porém, um raio atingiu um avião da companhia aérea Delta, em solo, durante uma tempestade, no Aeroporto Internacional de Atlanta. E um passageiro flagrou o momento. O passageiro paparazzo, Jack Perkins, aguardava a hora de seu voo para Minneapolis e fotografou o raio com o celular. Mas, calma, meu povo, os aviões são revestidos de metal e funcionam como condutores da energia. Ou seja, o raio é tipo vontade, uma coisa que dá e passa.

4 – Pouso de emergência no meio da avenida
Lugar de avião pousar é na pista. Na pista do aeroporto ou aeródromo, que fique claro. Mas há dois anos, em New Jersey, nos Estados Unidos, um avião pequeno resolveu ser tipo diferente e fez um pouso de emergência bem no meio de uma estrada. E quase acertou os carros que trafegavam no local. O avião de que se fala era um monomotor e transportava cinco passageiros, entre eles alguns alunos de uma escola de paraquedismo. O motivo? Falta de energia da aeronave. A sorte? Ninguém se feriu gravemente. Mas foi um baita susto.

5 – Gordinho, vá pra casa, emagreça e depois pode voar
A companhia aérea Air India é bem polêmica quando se trata do peso de sua tripulação. Em 2015, por exemplo, impediu que 125 tripulantes considerados acima do peso voassem. Em outras várias situações, ameaçou demitir os profissionais fora do padrão da cia. Na ocasião de dois anos atrás, a empresa, que é estatal da Índia, defendeu-se das críticas dizendo que a medida partiu do órgão regulador da aviação civil do País, tipo a Anac deles. A motivação é que talvez os tripulantes não conseguissem agir rápido em situações de emergência. Para isso, de acordo com a Air India, 600 tripulantes foram incentivados a entrar em forma em 2014, mas 125 não conseguiram. E em 2009, a companhia, que pelo visto tem tolerância zero com os gordinhos, mandou embora nove mulheres alegando questões de segurança por estarem acima do peso.

6 – “I see dead airplanes”
Tem cemitério de gente, tem cemitério de animais, tem cemitério de carros e… tchan!, tem cemitério de aviões. O de Victorville, no sul da Califórnia, por exemplo, tem um visual incrível. O depósito de aviões antigos atrai gente de todo o País para ver dezenas de aeronaves, lado a lado, no meio do deserto. O local, que não é uma atração turística oficial da região, foi uma base da Força Aérea norte-americana e virou nos anos 1990, o Southern California Logistics Airport, aeroporto logístico multifuncional. E uma dessas funções é abrigar antigas aeronaves comerciais que estão fora de uso. O aeroporto, também conhecido como cemitério, fica a 128 quilômetros de Los Angeles e não é aberto ao público. Mas sempre tem um jeitinho e a turma pode ver e fotografar os companheiros aviões de longe.

7 – Piloto tira soneca e avião despenca, mas não cai
Então, em 8 de agosto de 2014, um Boeing 777 da companhia indiana Jet Airways, a segunda maior do País, despencou por 1,5 km, enquanto estava a 34 mil pés de altitude. Agora, creia, os 280 passageiros não ficaram desesperados. A explicação? Ninguém soube. A verdade é que o piloto tirou um cochilo, previsto pela Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) para evitar a fadiga (abraços, Jaiminho!) e o copiloto checava informações no iPad. Como eles foram salvos? A galera da torre de controle do aeroporto de Ancara (Turquia) deu o toque e o copiloto acordou o comandante. Tudo acabou bem para o povo que saía de Mumbai em direção a Bruxelas, na Bélgica. A Direção Geral de Aviação Civil da Índia considerou o incidente “grave” e analisou os dados da caixa-preta do avião para apurar a responsabilidade dos pilotos.

8 – Vou ali tomar uma cervejinha… de avião!
Tem gente que gosta de tomar uma cervejinha, né? Aí, é só pegar um táxi e ir ao bar, tranquilo, de boa na lagoa. Pois é, até aí, tudo bem. O bicho pega mesmo é quando a pessoa resolve ir ao bar… de avião. Foi o que aconteceu em 2014 em Newman, cidadezinha da Austrália. De repente, um homem saiu de casa e “dirigiu” seu avião – um Beechcraft de dois lugares – sem asas e pá!, entrou no bar para tomar cerveja. A galera, ahahah, achou engraçado. A polícia – lamento, brother –, não. Considerou a atitude “estúpida” e convocou o homem para comparecer a uma audiência no tribunal local. Uma dica? Cara, não vá de avião. E quando for beber, não dirija também, hein?

9 – Um brinco do tamanho de avião…
Cheia de mimimi e burocracias, a Inglaterra, acredite, tem seus malucos. Um deles atende pelo nome de Johnny Strange – algo como Joãozinho Estranho – que, sabe-se lá o porquê, resolveu bater vários recordes para entrar no Guiness Book of Records. Um deles, o que interessa ao Blog Check-In, é o de puxar um avião com as próprias orelhas. Crazy people, o tal do Johnny, certa vez colocou umas correntes nos buracos perfurados das orelhas e arrastou um avião Cessna 172-P, por 20,4 metros. A máquina pesa exatos 677,8 kg e o feito ocorreu no aeródromo norte de Weald, em Essex. Não, as orelhas do estranho Johnny não foram rasgadas.

O que vale mais: horas de voo ou curso superior em aviação?

02.10.2015 - FOTO - MATÉRIA CURSO DE AVIAÇÃO - BLOG CHECK IN

As horas de voo dão ao piloto um conhecimento fundamental e prático, mas a graduação é indispensável. O piloto, afinal, é gestor de uma unidade de negócios da companhia aérea e precisa conhecer muito mais além da cabine

 

Edson Luiz Gaspar *

O primeiro curso superior na área de Aviação no Brasil foi criado em 1998. Logo surgiram dúvidas dos interessados em se profissionalizar na área. E a pergunta mais comum entre todas elas era: devo fazer o curso superior ou investir em horas de voo? Em 2003, ao assumir a coordenação do curso de Graduação em Aviação Civil na Universidade Anhembi Morumbi, comecei a me deparar com tais questionamentos. E olhem que eu já atuava na área, como piloto comercial de avião e helicóptero. O que mais me chamava a atenção era o fato de que muitos, principalmente os que não tinham formação superior, se adiantavam em criticar aqueles que estavam cursando.

Hoje, apesar de ainda vivermos a transição entre os modelos, a situação está mais consolidada. Prova disso é que a maioria das companhias aéreas estabelecem diferentes níveis de experiência ligada a horas de voo entre os que possuem e os que não possuem formação superior. É um sinal de reconhecimento do mercado ao que é ensinado nas universidades.

Negar a necessidade de formação superior em aviação é o mesmo que dizer, por exemplo, que um dentista não precisa fazer universidade e que apenas seu conhecimento prático é suficiente. Se no passado funcionava dessa forma, como os chamados “tiradentes”, com a evolução observada em todos os segmentos, seria absurdo manter a ideia do passado. Tenho certeza que, nos dias de hoje, ninguém aceitaria ser tratado por um dentista “apenas prático”.

Conhecimento

O conhecimento não ocupa espaço. É estranho dizer que uma pessoa que passa três ou quatro meses em um curso teórico em aeroclube ou escola de aviação está mais bem preparada do que outra que faz curso superior com duração de três ou quatro anos, com conteúdo curricular que abrange diversas áreas da aviação.

É verdade que, no início, ocorreram problemas ligados ao ensino nas universidades, especialmente em relação aos professores, mas, na medida em que a questão foi evoluindo, os resultados melhoraram.

Voltando à questão se vale mais a pena investir nas horas de voo do que na formação superior: se colocarmos na “ponta do lápis” quanto custa a formação prática de voo e o abatimento que companhias aéreas oferecem para quem tem graduação, acredito que a segunda opção leva a vantagem.

Como exemplo, em uma das últimas seleções de uma grande companhia aérea, foram exigidas 500 horas de voo como experiência para os que não tinham formação superior e 250 horas dos que possuíam. E qual o custo dessa diferença? Tenho certeza que as 500 horas ficarão mais caras. É só colocar a conta na ponta do lápis.

Graduação

Outra questão a ser debatida diz respeito ao fato de o piloto, que já atua na aviação, se perguntar se vale a pena cursar a graduação. Atualmente, cerca de 20% dos alunos matriculados já possuem alguma licença de piloto e declararam satisfação em relação ao ensino, pois aprendem questões que vão além da formação técnica.

A graduação precisa evoluir para proporcionar cada vez mais conhecimento, buscando formar um profissional mais qualificado. No passado, o piloto era um “empurrador de manete” e muitos tinham apenas o conhecimento prático, pois tudo era manual. Com a evolução da “tecnologia embarcada”, o papel do piloto vai além. Ele é, na realidade, um gestor de uma unidade de negócios da companhia e precisa tirar o máximo proveito dessa unidade.

Para isso, porém, precisa conhecer muito mais além do “cockpit”. Ele precisa saber tudo sobre a gestão da empresa, suas áreas, processos e outras questões administrativas essenciais para que avance na carreira com o conhecimento inerente a um excelente profissional da área de Aviação. Aí, então, é só subir!

 

* Professor Doutor Edson Luiz Gaspar é coordenador do curso superior de Aviação Civil da Universidade Anhembi Morumbi e piloto comercial. Ele também é instrutor de voo de avião e helicóptero.