Voar, voar, subir, subir

Desde o início dos tempos o homem sonha em poder bater asas e sair por aí, voando, conquistando os céus. A mitologia grega conta a história de Ícaro, filho de Dédalo, que se deu mal na tentativa: voou, voou, caiu, caiu

Freddy Charlson

Pilotos de asa delta, paraquedistas, astronautas, Santos Dumont, Irmãos Wright, Leonardo da Vinci… Tudo gente criativa, corajosa, ousada e louca para realizar o sonho de voar. Em momentos distintos da história da humanidade eles viraram heróis, ficaram famosos – na medida do possível, afinal as redes sociais são uma invenção recente – e se transformaram em ícones de um sonho: o de voar.

Um tipo de heroísmo que é almejado desde os primórdios da vida na Terra. E, vou te falar, faz tempo! Começou lá atrás, com Ícaro, um dos trágicos heróis da mitologia grega. Ícaro era, tipo a Ismália do poeta brasileiro Alphonsus de Guimaraens, um sonhador. Sonhava em… voar. Algo que, ainda hoje, é impossível para o homem, sem a ajuda de aparelhos ou máquinas. E, um dia, ele achou que esse sonho viraria realidade. Foi quando seu pai, o inventor faz-tudo Dédalo, resolveu construir dois pares de asas com penas de gaivotas, coladas com cera, e esqueleto de barro e argila para fugir do exílio em que viviam, na Ilha de Creta, no que hoje é a Grécia.

(Pausa para o momento “ensino fundamental”… Dédalo e Ícaro viviam em Atenas, atual capital da Grécia, e foram exilados após Dédalo matar até o talo o sobrinho Talo, um inventor emergente, com medo da concorrência do jovem familiar. Ele atirou Talo do alto de Acrópole. Só se esqueceu de que o todo poderoso Zeus – sim, Zeus, e não Deus, que isso aqui é mitologia grega – via tudo. Tanto viu que mandou Dédalo e Ícaro para a Ilha de Creta, aonde reinava Minos, e aonde ele construiu o Labirinto, casa do Minotauro, metade homem, metade touro, que matava os desgraçados condenados à morte. Fim da historinha.)

Vixe!

Pois é, a ideia de Dédalo tinha tudo para dar errado. E deu. Em parte.

Empolgadinho com o voo, Ícaro esqueceu-se de obedecer às recomendações do pai: “Filho, não fique muito perto da água, senão a umidade vai tornar as asas mais pesadas e você vai cair no mar. Ah, filho, também não fique muito perto do sol, senão o calor vai derreter as asas e você vai cair no mar”, traduzido do grego arcaico – e voou, voou, subiu, subiu. Sim, o jovem que serviu de personagem para a música do cantor brasileiro Byafra – Sonho de Ícaro – subiu o mais rápido que conseguiu, feliz em estar tão próximo do sol até que… o calor derreteu as asas e ele caiu no mar.

Mor-reu.

O sonho de Ícaro, porém, continuou vivinho da Silva. Melhor, vivinho da Vinci. Leonardo da Vinci, italiano de Florença – ou de Firenze, como queiram – criou, já no século XI (xi!) um tal de ornitóptero, aparelho que imitava o voo das aves, com as asas móveis. Ok, não deu em nada. O homem – e aí eu digo “todos os homens” – não tinham, e não têm, força suficiente nos músculos para bater asas e voar (crossfiteiros, isto não é um desafio!). Não se sabe o tanto de gente que passou desta para uma melhor despencando de penhascos na tentativa de ser mais bem-sucedido do que Ícaro, filho de Dédalo e Naucrata, uma escrava do rei Minos.

Dédalo, aliás, teve que fugir do reino de Minos após anos de prisão no próprio labirinto que construiu. A história é a seguinte: Poseidon, deus dos mares e irmão de Zeus, presenteou Minos, filho de Zeus, com um touro branco bem bonito, que deveria servir de sacrifício para o próprio Poseidon. Minos curtiu tanto aquele touro que resolveu sacrificar outro. Tudo bem, né? Não para Poseidon, que fez um feitiço capaz de levar Pasífae a apaixonar-se pelo belo touro. Dessa relação nasceu o Minotauro (“Touro de Minos”), um ser com corpo de homem e cabeça de touro! Minos não curtiu.

LABIRINTO – Minos não curtiu e enclausurou o ser no labirinto construído por Dédalo, já que o Minotauro não poderia ficar solto na ilha de Creta e Minos também não poderia matá-lo, afinal ele era filho de sua mulher. Pronto? Nada. Vários heróis tentaram matar o Minotauro no labirinto. Não conseguiram. Até que Teseu, com a ajuda de Dédalo, conseguiu o feito. Matou o monstro e ainda conseguiu fugir do labirinto – é que, maroto, Dédalo ensinou-lhe a manha de usar um novelo de lã para encontrar a saída mais fácil do local.

Indignadinho, o rei Minos enclausurou Dédalo e Ícaro no labirinto. Até que nossos heróis tiveram a ideia de fazer as asas, fugir, voar, voar, cair, cair. E eis que o sonho de Ícaro – música eternizada na voz de Byafra (um beijo, anos oitenta!) – cravou, feito epidemia, em boa parte da humanidade.

Muitos séculos depois dessa lenda da mitologia grega, o já citado Leonardo da Vinci criou vários desenhos e objetos a respeito do tema, Bartolomeu de Gusmão voou de balão, apareceram Santos Dumont, em 1906, e os Irmãos Wright (um pouco antes ou um pouco depois que o brasileiro, depende do referencial) com seus aviões, chegou o tempo da corrida espacial, o homem foi à Lua (em 1969, mesmo que digam que não) e, agora, a Nasa (agência espacial norte-americana) sonha em conquistar Marte.

Uma trajetória incrível na luta para conquistar os céus, mas ainda demasiado lenta para os mais sonhadores. A verdade é que nunca voaremos por nós mesmos. A genética não permite. E, não, nunca alcançaremos, com asas, as estrelas ou o Olimpo, terra dos deuses da mitologia grega, aqueles mesmo que protegiam e ameaçavam gente como o sonhador Ícaro. Não somos aves – homens feitos de sonhos é o que somos.

SAC - infografia Sonho de voar

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