Gente, a caixa-preta é laranja!

Objeto grava os áudios da cabine e registra as ocorrências de voo, sendo indispensável para descobrir causas de acidentes e prevenir desastres. Saiba como é o funcionamento desses dispositivos!

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Pra começo de conversa, a caixa-preta é laranja. Sério?! Aham. E o motivo é simples: facilitar a localização da dita cuja em meio aos destroços de acidentes envolvendo aeronaves. Como o que ocorreu no dia 24 de março nos Alpes franceses, matando 150 pessoas, com um Airbus A320 da Germanwings, braço low-cost (para quem não liga o termo ao significado, “companhia de baixo custo”) da gigante da aviação alemã, a Lufthansa. Ora, muito mais fácil encontrar uma caixa laranja numa floresta, no mar ou em montanhas, por exemplo, no meio de todas as ferragens e bagagens, do que um objeto, sei lá, preto.

Objeto, aliás, que tem funções que facilitam a descoberta dos motivos da queda de uma aeronave. Coisas como gravar o áudio da cabine, tipo o som ambiente ou as conversas envolvendo piloto e copiloto entre si e com as torres de controle. Missão para o “gravador de voz da cabine do piloto” (CVR). Outra função do referido objeto é registrar as ocorrências do voo, como a velocidade do avião, as manobras feitas pela tripulação, a altitude e otras cositas técnicas más. Missão para o “gravador de dados do voo” (FDR).

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Investigador do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos – National Transportation Safety Board (NTSB) recupera caixa-preta de acidente aéreo

É por isso, portanto, que equipes de salvamento correm atrás da caixa-preta logo após acudirem os eventuais sobreviventes de um acidente aéreo. Tudo para que especialistas na coleta dos dados gravados nesses objetos possam analisar e tentar decifrar os motivos da queda da aeronave – se falha mecânica ou humana ou, ainda, culpa da natureza. Ou, quem sabe?, um “alinhamento de planetas”. O objetivo é detectar possíveis falhas e tornar ainda mais seguro o ato de voar.

Um trabalho feito de maneira mais corriqueira desde 1958, quando o cientista e engenheiro de aviação australiano David Warren produziu o protótipo chamado “Unidade de Memória de Voo”, que começou a desenvolver cinco anos antes, ao ajudar na investigação de quedas de aviões Comet. O dispositivo criado por Warren gravava quatro horas de conversas na cabine do piloto, além de registrar as leituras dos controles.

PARAFERNÁLIA

A parafernália não fez sucesso nos Estados Unidos porque:

1) os fabricantes de aviões não viam grande utilização na geringonça;
2) os pilotos reclamaram, achando que seriam espionados e blablablá. Resultado? Warren levou suas ideias para a Inglaterra e, lá, virou campeão de audiência. Pronto, como a grama do vizinho é sempre mais verde, a terra do então presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower resolveu adotar o protótipo e transformou-o em peça obrigatória a bordo dos aviões comerciais.

Uma curiosidade: o próprio nome caixa-preta surgiu com os pilotos da RAF, a Real Força Aérea britânica, que chamavam de “black box” (caixa-preta, no inglês) as inovações feitas em suas aeronaves durante a Segunda Guerra Mundial. O nome pegou.

O nome pegou mesmo e passou a designar as caixas metálicas que envolvem, cada uma, os dois diferentes sistemas eletrônicos (o de áudio e o de ocorrências de voo). Espertos, os fabricantes acondicionaram os objetos laranja na traseira do avião. Sim, para garantir mais segurança a eles em caso de acidentes, visto que estatisticamente, em caso de queda, a parte traseira do avião tem mais chances de sofrer menos com o impacto.

E é sempre bom preservar essas caixas, mesmo que elas já sejam bem revestidas por alumínio e tendo, ainda, um bloco feito de titânio ou aço inoxidável que resiste a temperaturas até 1.100°C por 30 minutos e submersão até 5 km, além de impactos de até 34 toneladas. Ou seja, elas são “fogo na roupa”, com o perdão da expressão…

Encontradas, elas vão para um laboratório. Lá, é feito o download dos dados nos gravadores e começa o trabalho para recriar a situação que pode ter causado o acidente. A investigação pode demorar meses. Se a gravação de áudio estiver em boas condições, os investigadores escutam-na num gravador conectado a um sistema de leitura. Se os gravadores estiverem queimados ou danificados as placas de memória são retiradas, limpas e conectadas a um gravador com software especial para facilitar o resgate dos dados.

FORÇA-TAREFA

A força-tarefa para analisar os dados é composta normalmente por representantes do fabricante do avião e da companhia aérea, especialista em segurança de transporte e investigador de segurança aérea. Eles analisam as placas de memória que, atualmente, têm espaço digital de armazenamento para duas horas de dados de áudio (CVR) e 25 horas de dados do voo (FDR).

Os sons da cabine do piloto, por exemplo, são registrados por microfones e enviados para a CVR, onde as gravações são digitalizadas e armazenadas. Os gravadores de dados do voo (FDR) armazenam os dados operacionais da aeronave. Assim, quando um botão é ligado ou desligado, por exemplo, a operação é gravada pela FDR. As FDRs gravam coisas como altitude da pressão, velocidade do ar, tempo, aceleração vertical, curso magnético, posição do volante de comando, posição da coluna de controle, posição do pedal do leme, estabilizador horizontal e fluxo de combustível.

Para garantir a qualidade e capacidade de resistência das caixas-pretas, os fabricantes aplicam diversos testes: impacto da queda, esmagamento estático, lançamento de pino, submersão profunda, submersão na água salgada, teste de incêndio e imersão em fluídos. Sim, a caixa-preta é, antes de tudo, forte. Quem dera os passageiros fossem assim…

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